Páginas

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Nomes e flores



Ontem fiquei pensando sobre nomes e como eles podem (ou não) representar o que somos e como agimos. Será que os nomes que recebemos ao nascer já indicam sinais, será que são garantia de algum tipo de predestinação?
Não sei. De qualquer forma, não acho que o Um Dois Três de Oliveira Quatro (se é que ele existe mesmo) necessariamente tenha se tornado contador, ou que a Dona Tides (ou Bucetildes) seja comandante de algum bordel por aí, nem que o Necrotério Pereira da Silva seja dono de funerária mas, vamos e venhamos, nomes são para sempre e mesmo não sendo sinal de predestinação podem gerar muita confusão, raiva e revolta na vida de quem recebe.

Como naquela música do Johnny Cash, "A boy named Sue". Em geral, as músicas dele têm jeitão marginal e rude, falam de revoltas, prisão, assassinos e afins. Mas o folk é dos bons e essa letra ainda tem um humor nas entrelinhas e uma saída das boas pra revolta do garoto cujo pai batizou com nome de mulher antes de abandonar a família. Vejam só alguns trechos (omiti as partes do arranca-rabo entre pai e filho, talvez um pouco sangrentas pra estômagos delicados!):

"Well, my daddy left home when I was three,
and he didn't leave much to ma and me,
Just this ole guitar and an empty bottle of booze.

Now I don't blame him 'cause he run and hid,
But the meanest thing that he ever did,
Was before he left he went and named me Sue.

Well, he musta thought that it was quite a joke,
An' it got a lot of laughs from lots a folks,
Seems I had to fight my whole life through.
(...)
I grew up fast and I grew up mean,
My fist got hard and my wis got keen,
I roamed from town to town to hid my shame.

But I made me a vow to the moon and stars,
I'd search the honky-tonks and bars,
And kill that man that gave me that awful name.
(...)
He was big and bent and grey and old,
And I looked at him and my blood ran cold, and I said,
"My name is Sue! how do you do! Now you gonna die!"
Yeah that's what I told him.
(...)
And he said, "Son, this world is rough,
And if a man's gonna make it he's gotta be tough,
And I know I wouldn't be there to help you along.

So I gave that name and I said goodbye,
I knew you'd have to get tough or die,
And it's that name what helped to make you strong.

Now you just fought one hell of a fight,
And I know you hate me and ya got the right,
To kill me now and I wouldn't blame you if you do.

But you oughtta thank me before I die,
For the gravel in your gut and the spit in your eye,
'Cause I'm the ------- that named you Sue."

Well, what could I do, what COULD I do?
Well I got a choked up and threw down my gun,
Called him a pa and he called me a son,
And I come away with a different point of view.

I think about him now and then,
Every time I try and every time I win,
And if I ever have a son,
I think I'm gonna name him,
Bill or George anything but Sue!
I still hate that name!"

De fato, um garoto com nome de mulher só poderia crescer com ódio no coração. Imagina chamar um filho de Suellen?
Pobre coitado!

Aqui em casa, como ambos (eu e marido) fomos (ele ainda é) professores universitários, a coleção de esquisitices de lista de chamada é grande.
Agora no começo do ano marido recebeu um comunicado da reitoria com o pedido de um aluno para evitar grandes constrangimentos... o fato é que no registro do tal aluno consta algo como Luiz Carlos, mas ele optou por ser Fernanda... coisas do mundo de hoje!
Só sei que o marido anda se policiando pra evitar a gafe...

Enfim, tudo isso é pra dizer que o jardim de casa, volta e meia é cuidado por pessoas com nomes singulares. Meu jardineiro anterior era o Seo Gentil. O ex-atual, que pretendo nunca mais contratar, era o Sr. Divino.
Gentil e Divino ou, ainda (adj.) delicado, amável, agradável: um jovem gentil. / Cavalheiresco, garboso, elegante, galhardo, bem-proporcionado, gracioso. E (adj.) pertencente a Deus; proveniente de Deus: a misericórdia divina. / Fam. Sublime, perfeito, maravilhoso.

O primeiro sumiu sem deixar vestígios mas, de fato, era um senhor muito educado. Tanto que, dizem as más línguas, abusou dos seus dotes de cavalheirismo por aí e sumiu (informação adquirida pela minha fiel escudeira, também dona de um (sobre)nome sui generis: Petróleo...). Fofocas e maledicências à parte, o fato é que fiquei sem jardineiro e numa casa com gramado, em tempos de chuva a coisa complica.
Contratei, então o Seo Divino num momento de emergência. Na verdade, marido o contratou, sem saber que eu havia dispensado logo depois de feito o orçamento (ele cobrava simplesmente o dobro do anterior, totalmente fora da média para um jardim nem tão grande, nem tão pequeno). Tudo bem, íamos ter a festa de fim de ano, o quintal estava uma selva. Era uma emergência!
E marido, coração mole, ainda me dá uma gorgeta pro homem na hora de pagar!
Tá certo, era Natal...

Passou janeiro, a grama cresceu de novo e cá estávamos com a impressão de que uma onça iria pular do meio dos jasmins direto no nosso cangote em alguma noite sem lua. Chamamos de novo Seo Divino, que havia me prometido um "precinho bão" dessa vez.
Muito quietinho, fez o serviço e eis que, no fim do dia, me apresentou a conta e quase caí pra trás!!!
Algo assim como uns 70% de um salário mínimo... plus da gorgeta do marido incorporada, "mais um tantinho por conta das duas caixinhas de mudinha que a senhora, dona Ana, pediu preu prantá em vorta da casinha dessa veiz".
Mudinha? Muda fiquei eu. E bege e, logo depois, vermelha de raiva.
Divino... sublime, perfeito e maravilhoso... sei.

Só me restou pagar e dar uma de Pollyana, pensando no quão lindas estão as dálias vermelhas que comprei na ida ao Ceasa, junto com as malfadadas caixas de mudinhas...

Definitivamente, nomes não ditam regras de conduta. A não ser no caso da minha avó, que era Amélia e odiava o bordão daquela música, mas era uma mulher de verdade e cuidava sozinha do próprio jardim.

Fontes:
http://algunsnomesestranhos.blogspot.com/
http://vagalume.uol.com.br/johnny-cash/a-boy-named-sue.html
http://www.dicionariodoaurelio.com/
http://www.youtube.com/watch?v=M89c3hWx3RQ

6 comentários:

Beti Copetti disse...

hahahaha Muito bom!
Desculpa rir da tua desgraça, mas a história é hilária! Só não faça, por favor, como uma vizinha aqui de perto que, pra evitar outras desgraças assim, mandou cobrir o pátio todo com cimento!

Babz Lopes disse...

aff ana, que abuso desse seo divino!
mas as dálias estão lindas! olhe para elas para tentar esquecer tamanho abuso! por aqui tb os jardineiros não são flor que se cheire!

ana sinhana disse...

Babz, me fala se não foi um baita abuso?
Afe, não gosto nem de pensar nisso!!!
Beti, o pátio todo não, mas juro que me passou pela cabeça um certo arrependimento pelo tanto de grama que deixamos aqui...
Bjs

Monica Malva disse...

Danado esse seu Divino, por falar em nomes nunca gostei do meu Segundo Edmea, pode Monica Edmea??, coisas do meu pai... sabe-se lá quem era Edmea, até que uma moça disse a minha mãe que Edmea quer dizer Suave Recompensa, lindo né?! um grande beijo.
Monica "Edmea".

Olavo Flores disse...

Este seu Divino não tem nada de divino nele. Que história bem contada. Foi uma bela história ao ler pela madrugada.

ana sinhana disse...

Oi Olavo! Obrigada!

Oi Monica! Não sabia do seu Edmea! Mas pensa que sempre pode ser pior e, pelo menos, a intenção do seu pai foi a melhor!
bjs