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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Sentir-se em casa



Passamos os últimos dois dias na Paulicéia Desvairada, gastando sola de sapato, encontrando amigos e, por último, conhecendo esse museu bacana aqui.

Antes, eu reclamava bem mais de saudades de São Paulo. Embora não tenha nascido lá, fui morar na Vila Madalena ainda pequena e não tenho lembranças de outro lugar de infância. Lembro de ir ao Mappin pras compras de Natal com a minha mãe, de comprar LPs na Mesbla, tudo bem lá no centrão. E sempre achei que essas memórias bastavam pra me sentir pertencente a algum lugar, pra dizer de onde vim e qual é minha raiz.

Mas o fato é que ficamos num hotel na avenida S. João e ao andar por lá com meus filhos, vi cenas de dar vontade de voltar correndo pra casa, de tanta tristeza. Meninos de olhar eufórico e vazio estendidos pelo chão, correndo entre os carros apressados, fumando crack. Coisas de cortar o coração. Coisas comuns numa grande cidade dos dias de hoje.

Depois que tive filhos, vi que dificilmente voltaria a morar em SP. Ontem, essa certeza foi ainda mais forte. Meus filhos são caipiras, no melhor sentido da palavra. E a infância deles, tão protegida e bem cuidada, nunca seria a mesma por lá.

Hoje, já em casa, senti falta de coisas de infância. A minha não foi lá das melhores, embora não fosse culpa da cidade, que nem era tão carregada de violência como é hoje.
Mas, buscando lá no fundo do baú, as melhores memórias que guardo não são as paulistanas e sim das férias, bem longe do barulho, lá na casa da vó Amélia e do vô Mário.

Meus avós me criaram por um tempo e voltar pro abraço deles era bom demais. Percebi que é junto deles que guardo aquelas lembranças especiais de menina, cheias de cheiros e detalhes que não se esquece.
Lembro das gavetinhas da máquina de costura, de colocar bobs no cabelo da vó (que dizia que não era qualquer um que podia pôr a mão na cabeça dela), do biscoito de polvilho frito, do doce de banana, do vô me levar pra tomar caçulinha de guaraná no bar, da saracura de estimação, brava e ciumenta de dar medo.

Tudo tão bom, tão precioso e, ao mesmo tempo, tão simples. Quando sonho com eles, acordo com a sensação de ter ganho um presente especial, como se tivesse sido abraçada e ninada a noite toda no melhor dos colos. Isso sim é sentir-se em casa, pois é o máximo de aconchego e amor que há. E eu demorei a entender que nenhuma cidade traz isso, nenhum lugar do mundo guarda isso.

Então, nessa tarde gelada e chuvosa, resolvi aproveitar as bananas maduras da fruteira e fazer bananada, só pra lembrar deles. Sempre tinha um vidro cheio de doce de banana cheinho na casa da dona Amélia. Era o melhor de todos: bem escuro, espesso, cheiroso demais. E, nas minhas primeiras experiências culinárias, eu sempre tentei e nunca consegui fazer igual. Já adulta, perguntava porque o doce dela ficava marrom escuro e o meu não. Achava que, talvez, fosse o limão, e colocava mais. E nada de dar certo. E ela sempre desconversava, com aquele ar blasé de cozinheira que adora receber confete e finge que não é nada.

Quando minha avó já estava bem velhinha, perguntei de novo. Ela deu uma risadinha impaciente e disse: "que limão que nada. Eu coloco é uma colherona de Nescau". Típico dela, minha amada, saudosa e marota avó que, sem se dar conta, me ensinou o valor da simplicidade e das pequenas coisas.

18 comentários:

Nana disse...

Outra que vou brigar!
Tu vem para cá, fica do lado de casa e nem um oi?!
Aninha, não faz isso d´novo não, só para dar um beijo tá bom?!
Bananada me lembra infância tb, ohh coisa boa.
Bjss

Erva Cidreira disse...

Issoooooooooo captou o espirito da coisa hehehehhe.....
Por isso que moro na roça , não supoooorto cidade grande...minha filha tbem é caipira relaxa hahahah que bom isso sim....
Agora doce de banana bemmmmmmmm escuro é o rpeferido daqui de casa tbem ....porque será ? coisa de vóooooooo mesmo..traz a infancia pelo cheiro...bjocas

ana sinhana disse...

Oi Fe! Cheiro de infância devia ser sempre coisa boa, né?
Oi Nana! É só me convidar!
Bjs

Maria Amélia disse...

Que lindas lembranças...as vezes dá uma vontade de voltar o filme e rever todo mundo que já não está presente de corpo mas que deixou um tesouro impagável: a saudade. Feliz de quem sente pois só sente quem viveu coisas boas. bjs

Santo Pano disse...

Ola, lindo blog, parabéns !

Ana disse...

oi ana

Que post delicioso. Na epoca que fazia o doce de banana o meu sempre ficava avermelhado e queria saber como escurecê-lo tambem...kkk

bjus ana maria
jeito de casa

Stella Maria disse...

Até me emocionei.

ana sinhana disse...

Oi Stella, bom-dia! Se emocionar é bom, né?
Oi Ana! Então, agora tenta com a dica da vó Amélia!
Oi Santo Pano, obrigada!
Oi Maria Amélia! Concordo com vc. Essa saudade é boa!
Bjs e bom findi a todos,
Ana

Meu jeito Pollyana de ser disse...

Oiee!!!
Tem mimo p vc no meu blog!!!
Pega lá!!!
Bom final de semana!!!
bjokas da pri

Bárbara Lopes disse...

oi Ana! Lindo texto, lindas memórias. Estes detalhes simples é que falam à alma! =]
Lembrei das minhas avós, das férias com as primas, tanta coisa boa.

Tenho certeza que seus filhos terão boas lembranças da infância deles.

Beijos para todos! =]

Suzana Duarte disse...

Ana, adorei suas lembranças e suas descobertas!
Há 15 anos sai de SP com minha filha bem pequenina...vim para o interior do Paraná. Virei caipira do pé vermelho! Aqui eles falam "eu sou bicho do Pr"...rsrs
Acho que foi a escolha mais acertada... sinto falta da família que ficou por aí....demorei um tempão para entender que a distância não é tão importante quando se quer estar com alguém...descobri que vejo mais meus irmãos que moram em SP, do que eles mesmos que moram no mesmo bairro...rsrs
Adoro ser caipira!
bjos querida!

Ah! vou experimentar o doce de banana com nescau! ;o)

Festas disse...

gosto muito de su blog e de seu jeito de ver a vida....porque vc não escreveum livro? eu compro, rsrsrs. adoro suas historias.moro em portugal...e aqui nao tem nada disso,tambem tenho muitas saudades de casa, pois morei a visa inteira no interior...bju bere
meus blogs
festastematicas.blogspot.com
verdeerosadecoracoes.blogspot.com

Stella Maria disse...

Oi, Ana, boa noite!
Emoção de lembrar coisas boas... é gostoso sim!!!!!!
Adoooro seu blog e esse fluir das suas palavras - uma delícia!
Beijo. Linda semana!

ana sinhana disse...

Oi Stella, oi Festas (não sei teu nome!),obrigada! Fico lisonjeada com as palavras carinhosas de vcs!
Oi Suzana. Não sabia que vc também era paulistana!
Oi Babz! Pois é, acho que eles terão coisas boas pra contar pros filhos, né?
Oi Pri, obrigada pela lembrança e pelo carinho!
Beijos, boa semana a todas!

Patrícia disse...

Sabe, eu tenho essa mesma sensação quando vou a São Paulo.Amo essa cidade e quando posso vou a passeio, mas prefiro criar meus filhos bem longe dela.
Tenha uma ótima semana

Eliene Vila Nova disse...

olá
menina eu também voltei oje para casa e vou te dizer não tem coisa melhor do que minha cama, minha casinha, tão minha.
boa volta ao lar
beijos

Laély disse...

Oi, Ana!
Belo post. Também me remeteu a lembranças...
Como já lhe escrevi outro dia, ver meus filhos crescerem numa cidade, onde ainda é possível que as crianças brinquem na pracinha e que andem de lá pra cá, sem que nós, adultos, tenhamos um infarto, é um privilégio. Como vi hoje, um adesivo atrás, num carro: "Nóis é da roça, mas é feliz!"
Quando canso da pasmaceira da cidade pequena, é só dar um pulinho na capital, que a vontade passa.
Como também já lhe contei, o filho mais velho está indo estudar em Vitória. Tô meio atordoada com a mudança e tantas coisas para providenciar, mas não esqueci do seu caderninho. Já comecei a montar.
Abraço!

Rosa do Adro disse...

As histórias das nossas avós são do melhor que pode haver, deliciosas e fascinantes!!!

Gostei muito deste post ^_^

Felicidades