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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Birra is over!

Eu sou uma birrenta assumida. Pode ser com coisas ou pessoas, mas quando a implicância vem, é difícil ir embora. Sempre que insisto no mesmo assunto por mais de três vezes, uma amiga minha fala "xiii, você pegou birra! ferrou!".
E é verdade. Entro num processo milimétrico de achar todos os defeitos e resolvo que só posso detestar o pobre objeto do desafeto.
Nos últimos tempos, o alvo foi meu carro. Que nunca deu grandes problemas nem despesas e, ainda assim, era detestável, sem personalidade, nem cor. Além de ser o vaso sanitário de nove entre dez passarinhos da árvore de casa. Um pobre coitado.
Nunca consegui ter uma convivência pacífica com ele, que foi fruto da troca do meu ex-carrinho antigo mais que amado, num momento de extrema dureza e necessidade. Engraçado a transferência da situação em si para o objeto. Sem ter consciência, acho que tornei o pobre automóvel um símbolo de tudo que me fez sofrer durante aquele período. Racionalidade zero. Mas razão nunca foi mesmo o meu forte.
O que sei é que há momentos em que a gente se apega tanto a auto-comiseração, a se sentir a vítima, a coitada, que esquece de agir. E me senti assim por um tempo. Passei por uma situação de demissão de um emprego mais ou menos que eu achava, naquele momento, que era a razão da minha vida, minha missão na terra. Sofri pra caramba durante um tempo, sem ter forças de escapar de um círculo vicioso de dor e revolta sem sentido.
Mas como disse uma sábia colega, demitida logo depois, "o melhor é deixar pra lá, porque quando a gente toma um pé na bunda desse tamanho, vamos parar muito mais lá na frente do que se estivéssemos paradas no mesmo lugar". E ela tinha razão, embora eu só tenha entendido isso muito tempo depois.
Não havia como ser diferente. É preciso algum distanciamento para curar certas dores. Ser preterido, deixado de lado sempre dói, por mais que a razão te diga o contrário. Correndo o risco de descambar pra pieguice, tem feridas que só mesmo o tempo pode curar.
Voltando ao carro, chegou a hora de trocá-lo. Depois de muito esforço, muita conta e uma boa dose de otimismo, começamos o processo. E, nesse meio tempo, fiz as pazes com o carro velho. Levei no tapeceiro, fiz uma baita limpeza, consertei o que tinha pra ser consertado. Um agrado geral, pois o pobre serviu muito bem a mim e à minha família.
E, de algum modo, sinto que fechei de vez um ciclo. Na verdade, um ciclo já encerrado há muito tempo. Só faltava entender e virar, simbolicamente, uma chave.
Há algum tempo, venho fazendo as pazes comigo mesma, embora nem tenha me dado conta. Tenho me permitido ser feliz, fazendo o que eu gosto. E, se não fosse aquele pé na bunda, eu nunca teria tido essa coragem. Afinal, o novo e o desconhecido dão medo e, na maior parte das vezes, só entram na vida da gente como invasores, porque é difícil demais se arriscar. Melhor viver na zona do conforto, sem risco de dores no traseiro.
A melhor forma de viver o presente é abandonar o que já acabou, sem remoer dores, nem insistir em antigos ressentimentos. Aceitar o novo é deixar o passado para trás, lá no lugar a ele reservado, como memória de bons e maus momentos. Só assim dá pra viver plenamente o hoje, abraçando o que recebemos de bom e aceitando que as coisas nem sempre são perfeitas, mas valem as tentativas no meio do caminho.
Aprender com o que passou ontem, viver o hoje, sonhar com o amanhã. Assim é a vida. E logo, logo seguirei de carrinho novo!

21 comentários:

Adri disse...

beep beep! ;)

Kelly Reis disse...

Que texto lindo Ana,
e você tem toda razão quando diz que há coisas que acontecem na vida da gente e que achamos ser o fim, mas que na verdade é o grande começo de outra fase, muito melhor!
bjs pra vc e boa sorte aí com o carrinho novo!

Estúdio de Design disse...

Ana
Sou birrenta também... pior, não só com objetos, mas com pessoas também! Um horror!
Eu não digo que peguei birra das coisas e sim, que perdi o amor... com o meu ex carro foi assim. O atual tá entrando num processo... tenho isso com carteira tb (superstição pura, quando passo fazes de pindaíba, troco de carteira pra mudar a sorte... e não é que funciona? Cheguei a fechar conta em banco... por perda de amor! rsss).
Beijos!
lele

Eliene Vila Nova disse...

amiga as vezes vamos no fundo do poço, para percebermos a força que temos ao levantar e começar de novo, nova vida, novas alegrias, mas sempre fé em Deus.
estou como você começando um novo ciclo, amei seu texto, palavras sábias.
te adoro
sua fã 00000
beijos

Dri Morango disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dri Morango disse...

Ana,
Birrenta não sou, mas ficava muito apegada ao passado.Aprendi uma frase e tenho tentado coloca-la em prática sempre que preciso "O novo só entra quando o velho sai".
Como às vezes o velho continua teimando em ficar, eu completo com a frase de um grande amigo "se o velho insistir em ficar... empurra ele para fora".
Beijos e parabéns pelo carro novo.

Iris Barcelos disse...

Que lindo!!!!precisava ler algo assim hoje....valeu amiga.Bjos.

Fernanda de Oliveira disse...

Adorei sua historia!
Eu trabalho ha 22 anos no mesmo lugar e não gosto. As vezes me pergunto se não seria o caso de eu mesma mandar o pé no balde... mas nunca tive coragem!

Olhando por um outro ponto de vista, você até que foi privilegiada com o tal 'pé na bunda', pois hoje parece ter uma vida muito mais feliz do que antes.

Parabéns!

Beijinho e linda semana pra vc ;)

Fatima Guimaraes disse...

Lindo texto.
A vida leva a gente para o desconhecido sempre e sempre com a intenção de ensinar alguma coisa.
Falo por experiência própria...sou paulista nascida e criada no interior de SP, hoje estou morando na Bahia por um empurrao da vida.
As coisas acontecem na hora certa...eu acredito muito nisso.
Boa semana e beijois

Paco disse...

Ana sou birrenta tbem, e lendo seu texto e os comentarios deixados me senti aliviada,pois sempre achei q fosse uma das unicas birrentas,menina qdo pego implicancia a tolerancia se torna "zero".
bjs
Susi

Barbara disse...

Nossa Ana, me vi inteirinha na sua história! Ainda estou na fase, ela ainda não passou, mas lendo você e os comentários, me sinto animada prá ir em frente. Valeu! Ah ... a birra! Pois é, também sou birrenta! Quando eu decido que "encerrei o assunto" parece a tecla Del ... não tem mais jeito. O pior é que sou assim com gente também... esse é um dos meus lados feios ... fazer o que? Beijocas

Laély disse...

Ouvi de um padre que, quando vamos ao fundo do poço, aí é que podemos pegar o impulso pra subir. Mais ou menos, o que a sua sábia amiga falou.
Ana, o importante é fazer algo que nos realize e onde possamos nos sentir valorizados.
Olha: senti-me hoje assim, ao receber a minha encomendinha nos Correios. Fiquei impressionada com todo o seu cuidado em lembrar de detalhes sobre os meus desejos!
Vou lhe mandar um e-mail depois, tá? Mas já lhe adianto, que hoje fizemos troquinhas, sem combinar antecipadamente, pois enviei seu caderninho, matrioska e outra surpresinha...
Abraço, querida!

rosana sperotto disse...

Ana, acho que apego é uma espécie de birra. A gente se agarra e bate pé para não soltar, mesmo quando a árvore não dá mais frutos, ou já estão tão maduros que passaram do ponto. E, sabe, penso que os "pés na bunda" muitas vezes são mesmo bênçãos, a roda gira por si, e somos poupados da decisão. Mas, é claro, precisamos de sabedoria para agarrar o limão e fazer a limonada, o que pode levar um tempo para, depois, render a melhor limonada. Obrigada pelo trecho compartilhado e muitos quilômetros de pura satisfação no novinho que tá chegando. Beijo

Annalu By Anna Sebba disse...

ai Ana, to numa fase tão dificil q suas palavras me fizeram até chorar!! tinha acabado de ler o post e a benção do meu filho derrubou uma caixa inteira de aviamentos e miudezas no chão... sentei e comecei a chorar, meu marido não entendeu nada e perguntou pq eu chorava só por botões... mas não eram só os botões... obrigado por me ajudar a soltar mais esse chorinho contido!!
bjussss

Coisas simples da vida disse...

Ana, parabéns pelo texto, e muito obrigado pelo seu coração escancarado...com certeza muitas pessoas serão abençoadas lendo aqui...Te admiro d++++
beijos
telma

ana sinhana disse...

Meninas, a verdade é que continuo birrenta e implicante. E acho difícil mudar isso. No máximo, talvez, renomear a atitude para excesso de zêlo intuitivo diantes de situações duvidosas... hahahahaha!
bjs

rosana sperotto disse...

Ana, eu de novo, para um duplo agradecimento: pela passada pelo AMÉM, com a gostosa troca de ideias, e por linká-lo, surpresa das boas que acabo de ver. Sabe, costumo usar teu blog para mapear meu passeio diário, já que no meu não tenho a atualização dos preferidos. Então, vim fazer a ronda e... não é que me encontrei, bela e faceira, entre aqueles que admiro. Obrigada! Beijo grande

Carol disse...

eu também crio birra e, pior, com pessoas! ;(

Marcela disse...

Ana, me emocionei com o seu post. Estou passando um momento difícil de término de relacionamento e nesse seu post foram ditas muitas verdades. Reli umas quatrocentas vezes as ultimas frases, com lagrimas nos olhos. É verdade, precisamos viver o hoje! E deixar o passado la atrás...
Obrigada, seu blog sempre me motiva...a cada dia!!
Beijos !

Paty disse...

Adorei esse post, pé na bunda sempre dói e nos faz seguir em frente mais fortes e birrenta tbem sou por isso sei qdo vc começa com uma, rs...
Bjos!

Sobre todas as coisas disse...

Que belo texto!!! Hoje, exactamente hoje, precisava ler algo tão bonito, tão parecido com o que estou a viver. Muito obrigado
Bjs