Comecei a ter gosto pela cozinha cedo. Lá pelos 12, tive minha primeira memorável experiência: um pudim de leite condensado, meio torto e despedaçado, mas que me deixou cheia de orgulho e vontade de aprender mais. E passei a mandar cartas pedindo livrinhos de receita pra tudo que era marca (Nestlé, Royal, etc). Engraçado pensar nisso agora e ver que a minha filha segue pelo mesmo caminho, mas com a grande diferença da facilidade de obter receitas, com duas ou três clicadas.
O fato é que nunca fui uma pessoa paciente embora, num primeiro momento, as pessoas me achem a criatura mais zen do universo. Ledo engano, por trás da calma aparente, alimento uma gastrite eterna.
Então, não sou dada a receitas demoradas, com muitas etapas nem nada disso. O meu primeiro grande drama na cozinha foi um embate com uma caixinha amarela, velha conhecida de todos, a MAIZENA. Lá pelos 18, na república em que morávamos, resolvi fazer manjar de côco e ameixa (sei lá porque cargas d'água, porque acho um doce insosso, que beira a mediocridade). E, apesar da pouca experiência na cozinha, meu feeling culinário me dizia pra não exagerar no amido de milho. Mas a gororoba não engrossava. E, num momento de fúria, entornei a panela na pia, praguejei contra o mundo inteiro e falei pro marido (que, na época era meu namorado e bem podia ter pulado fora dessa, coitado), que era culpa daquela B@#$&*A de cidade, que eu odiava o curso de economia (essa parte era uma meia verdade) e que eu ia embora.
Anos mais tarde, meu padrinho-professor-grande amigo o João, que é um baita cozinheiro, me ensinou que usar os amidos requer paciência e braços fortes. Ou seja, minha intuição estava certa, só me faltou aquilo que nunca tive.
O mesmo aconteceu muitas vezes com outro doce que amo, o QUINDIM. Aprendi a receita com a minha madrinha-amiga-comadre Silmara. O dela sempre foi o mais perfeito e delicioso dos quindins e a invejosa aqui, secretamente desejava repetir a façanha. Já estávamos em Campinas, no mestrado e morávamos, eu e marido, num micro apartamento de onde se ouvia berros noturnos, primeiro de uma boate de travesti, depois de uma dessas igrejas que tira capeta 24h por dia (a boate era bem mais divertida).
E lá fui eu com duas caixas de ovos, toda cheia de mim, pra mais um teste de paciência amarela. Receita longa. Quando fui desenformar o bicho amarelo, a meleca escorreu pelo prato e sujou meia cozinha. Engolindo a raiva, joguei no lixo, comprei mais duas dúzias de ovos e recomecei.
Como já disse, receita loooonga e, já de noite, novo momento de desenformar e eis que a meleca se repete.
Não tive dúvidas: já ia arremessar o amarelão pela janela, direto no estacionamento da igreja-sai-capeta, quando fui impedida pela mão do meu consternado marido. De novo, culpei a B#$@$A de mestrado, a ME%¨¨¨$A de cidade, etc.
De novo, faltou paciência.
E, apesar de amar quindim, deixei essas tentativas de lado.
Até que a
NANA, lá no
PRENDADAS, me aparece com uma receita perfeita de quindim de damasco do
CHOCOLATRIA. Meu olhou ficou marejado. Secretamente, comprei um pacote de damasco, outro de flocos de côco e esperei até ter coragem.
E foi ontem. Quando marido entrou na cozinha e me perguntou o que eu ia fazer, senti que ela estremeceu de leve à resposta: "quindim". Ficou em silêncio, naquele jeito falsamente tranquilo de quem espera resignadamente pela tempestade.
Levou grande parte da tarde e quase a noite toda. Lá pelas 23h, morrendo de sono, tirei o dito cujo do forno, enchi uma travessa de gelo para esfriar mais rápido e desenformeu o bicho. Já no PLOFT, senti a glória: perfeito!
Deixei o prato na geladeira, cansada e sem vontade nenhuma de cortá-lo, de tão lindo!
Fotografei hoje de manhã, ainda intacto:

Não segui a receita do chocolatria por uma questão de honra. Precisava tentar o da madrinha uma vez mais. A receita:
Quindim da Silmara:
24 gemas peneiradas
500 grs. de açúcar refinado
100 grs. de côco ralado
1 colher (sopa) de manteiga
1 colher (café) de baunilha
Misture tudo e deixe descansar por 2h, mexendo de vez em quando. Unte generosamente uma fôrma (ou várias forminhas) com manteiga e açúcar polvilhado. Leve ao forno a perder de vista em banho-maria. Desenforme frio.
Enfim, continuo impaciente como sempre, irritadinha e histérica. Mas finalmente aprendi que pra certas situações amarelas da vida o melhor é respirar fundo e esperar mais um pouco.