Semana passada, a população adolescente daqui de casa chegou com a notícia: amiga vai fazer 15 anos, com direito a festa, vestido de princesa, DJ e superprodução. Não, eles não estavam animados. Horrorizados seria mais a palavra. Não pela festa da amiga (a qual eles irão de bom grado), mas pelo medo antecipado do mico, afinal, ano que vem a minha dupla dinâmica completará 15 anos. Digamos que quem deveria se estressar é a mamãe aqui... putz, tenho filhos desse tamanho?
Mas vamos lá. O receio deles é de que eu queira fazer uma festa-baile-black-tie e que chame um casal BBB para dançar a valsa. Ou que eu resolva fazer uma festa temática e todo mundo tenha que vir de vestido rodado,
summer e cabelinho armado pra dançar o
twist.
Primeiro pensei, será que meus filhos tem alguma noção do meu (bom) gosto?
O fato é que pais fazem os filhos pagar mico e ponto. Não sei quando isso acontece mas, na relação mãe/pai e filho, em algum momento involuimos e nos tornamos os primatas. Tudo é um mico. E qualquer mínimo deslize vira um escorregão na casca de banana.
Não que eu ligue muito. Acho até que me aproveito um pouco. Exemplo: quando vou buscá-los no clube à noite depois da aula de basquete do grandão, sempre ameaço dizendo: "a essa hora, já estarei usando meu pijama de flanela vermelho de coraçãozinho e pantufa. se vcs não quiserem que eu apareça na quadra gritando pelos dois, é só me esperar lá fora às 21h15 em ponto". Nunca falha.
Imagine se eu usasse bóbis pra dormir?
Eu m-o-r-r-i-a de vergonha dos bóbis da minha mãe, com aquele lenção de cetim por cima. E ela nem aí. Enfim, sofri com os micos maternos também.
E os maiores micos eram sempre nos meus aniversários. Juro que não estou me fazendo de coitadinha, mas não consigo me lembrar de sequer uma festa de infância memorável - e sem micos. Digamos que, como mãe festeira, a minha era uma excelente futura gerente de compras.
Nunca vi nada igual. Os bolos nunca desenformavam, era uma coisa triste, rachada, quebrada no meio, zero no quesito comer com os olhos. Então, ela sempre decidia fazer o bolo na fôrma mesmo e eu quase enfartava fulminantemente de vergonha porque, naquela altura, meu perfeccionismo já começava a me maltratar internamente.
O pior de todos os aniversários foi lá pelos 6 anos. Minha mãe decidiu fazer um bolo lindo. Fez o pão-de-ló de leite fervendo e lá foi preparar a cobertura, daquelas de caixinha, bem seventies. Cobriu o bolo na fôrma mesmo, esparramando muita meleca pra disfarçar. E polvilhou por cima com açúcar cristal verde, beeem verde. Mas ainda era pouco: toda orgulhosa, ela tira da gaveta uma sacolinha com enfeites de festa. Pra meu absoluto horror, não eram menininhas, nem princesinhas, nem mesmo a família Barbapapa. Eram dois times de... futebol!
Não sei o que foi maior, minha decepção ou a pré-vergonha de prever a vergonha perto das amiguinhas da escola. Tive calafrios de embaraço.
Mas cresci, superei o trauma das péssimas festas de aniversário e fiz festas memoráveis para os meus filhos. Sempre com temas que eles mesmos escolhiam e sempre com um esquema maluco de começar muito antes, quase morrer pra fazer tudo sozinha (não divido meus louros com ninguém!) e vê-los felizes na hora do parabéns.
E olha que o grau de exigência sempre foi elevado. Cada um pedia um bolo diferente e, já que a festa era uma só, eu atendia esse desejo: bolo de morango pra Bia, bolo de chocolate pro Juca.
Numa das festas, me vieram com o tema inesperado: Beatles. Sim, aqueles de Liverpool. E toca a fazer submarino amarelo de papietagem, painel pintado à mão e outras insanidades.
Enfim, tudo diferente do que foi comigo. Acho que acabei invertendo as coisas e tomei como não-exemplo alguns episódios de mini-trauma de infância.
Mas, em algum momento, virei a mamãe Monga, que arrasta os braços no chão e balança as grades dando fortes urros.
E não teremos festa de 15 anos. Nem um bolinho sequer será permitido. E já ameaçaram não estar aqui na data. Me avisaram que vão viajar, mas que a gente pode ir junto (eu, papai e caçula). "E pra onde a gente vai?", perguntei.
Resposta: "pode ser pra Itália mas, se não der, tudo bem. Aí podemos ir conhecer o
maior cajueiro do mundo?"
O quêêê???
Definitivamente, minha família não é normal.