A reforma na casa do meu vizinho terminou, graças aos céus. Sem mais britadeiras, poeira, nem radinho tocando pagode no último volume. Thank God!
Mas o melhor de tudo foi pedir (e ganhar) na maior cara-de-pau os banquinhos de apoio dos pedreiros. Sim, aqueles bem toscos, feitos de madeira de construção. Vizinho fez a cara que marido faria mais tarde naquela mesma noite, querendo dizer algo assim: "o que essa louca vai fazer com isso?".
Mas claro que ele não disse nada. Afinal, manda a política da boa vizinhança que a gente seja educado com os vizinhos (ainda mais os de muro).
Moramos aqui já tem 13 anos e devo dizer que esses são os melhores vizinhos de muro até agora. Chegamos a pensar que a casa do lado tinha algum tipo de maldição, que tinham enterrado uma cabeça de cavalo debaixo do concreto tamanha a falta de sorte, pois já moraram por lá uns tipos bem esquisitos.
O primeiro casal até que era bacana. Tinham um filhinha fofa, eram educados, tudo ótimo. Porém (sempre tem um porém!), a moça era professora de bateria. Mamãe, que martírio era aquilo. Aula de bateria pra iniciantes ninguém merece. E o marido tocava guitarra. E o estúdio de som deles não vedava porcaria nenhuma.
Depois deles veio a Dona Codorna. Não sei, nem quero saber o nome dela; a apelidamos assim pelas formas arredondadas, pernas bem finas e pela pose empinada.
Mas faço aqui uma mea culpa: não acho que tenha sido justo o apelido, afinal, codornas são um bichinho meigo. E a véia era o cão chupando manga. E ouvia forró no último volume nos churrascos que promovia invariavelmente aos sábados à noite. E gritava estridentemente, como gritava.
Num desses churrascos, lá pelas duas da matina, resolvi mandar pro espaço a polidez e chamei o segurança que, coitado, foi escorraçado (falei que a véia era dureza?) e ela ainda gritou bem alto: "aumenta o volume que hoje esses 'RECARCADOS' vão ver só!". E dá-lhe forró.
Mas recalcados em geral acordam cedo, ainda mais os que tem filhos bem pequenos. Então, no domingo pós-forró nossa vingança se resumiu a duas caixas de som montadas em cima da janela e voltadas pro quarto da vovó festeira às sete da matina. O som escolhido à dedo? Jimi Hendrix, com direito a solos de guitarra de cinco minutos e muitos "fuck you in the ass"... e, claro, saímos pra passear com os pequenos.
Juro que foi a única vez em que tomamos uma providência tão drasticamente moleca e mal-educada. Mas o gostinho foi bom, confesso.
Depois dela veio o casal que brigava. Também não lembro o nome deles e não deu tempo de dar apelido (acho que eles devem ter se separado). Certa vez, a briga foi à distância; a moça estava viajando à trabalho ou algo do tipo. E o cara ligava e nada de encontrá-la. Já meio nervoso, discutiu com o atendente do hotel; logo depois, a moça ligou e foi aquele quebra-pau telefônico, acusações nada sutis, xingamentos cabeludos, tudo num volume que não dava pra evitar ouvir.
Horas mais tarde, fui receber a pizza que havíamos pedido e lá estava o vizinho no portão, também esperando entrega. Com o ar mais plácido do mundo, me disse boa-noite e falou que também havia pedido pizza porque a esposa havia viajado e tal. E ainda completou: "como minha esposa faz falta!". Dá pra entender um ser desses?
Por sorte, tenho conseguido manter um currículo de bom comportamento com os vizinhos de todos os lados, embora na última tempestade marido quase tenha colocado tudo à perder. Naquele mesmo esquema de polidez e solidariedade, quando um raio quebrou a árvore na divisa entre as duas casas arrebentando os postes de energia, foi aquele fuzuê pra recolocar e religar a luz, o que foi feito por um mesmo eletricista.
O que sei é que a história rendeu muita conversa, que deixei a cargo do homem da casa, que estava de férias.
Quando dei por mim, meu simpático marido já estava combinando um cruzeiro familiar com o povo aqui do lado. E me imaginei num navio, no meio do oceano, sem ter como fugir da curiosidade da vizinha. Quase tive uma síncope!
Enfim, com vizinhos o melhor é manter uma distância discreta e cortês, afinal, o cara mora do teu lado, ouve até os pums do cachorro e sabe como ninguém da sua vida. E, embora eu não ouça forró no último volume, nem xingue (muito alto) o meu marido, nunca se sabe o tipo de absurdo que pode acontecer por aqui.
p.s.: depois mostro os bancos de construção.