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segunda-feira, 1 de março de 2010

Bolo às escuras



Na quarta-feiras de cinzas, tão logo eu retomei o ritmo e a rotina normais pós-carnaval, uma ventania seguida de chuva fez cair uma árvore e ficamos sem energia a tarde toda e uma boa parte da noite. Sem poder trabalhar, me resignei e fui pra cozinha.
Não bastasse a ousadia de cozinhar no maior escuridéu, ainda resolvi pegar um dos sete abacaxis da fruteira (marido, que é um homem-econômico-racional, não resiste a uma boa oferta de abacaxi) e testar uma receita nova.

Devo dizer que meu bolo de abacaxi ficou delicioso, daqueles dignos de guardar um pedaço pra levar pra mãe. A receita era para cupcakes, mas não achei as forminhas na cozinha às escuras, então, fiz uma assadeira de bolo, dividi ao meio e deixei metade sem cobertura, para os básicos. Na outra metade, foi aquela esbórnia: cobri o bolo com creme de baunilha e abacaxi com calda de caramelo.

Alguns dias depois, resolvi repetir o sucesso da receita, já que ia receber visitas.
Em condições bem melhores, peguei o livro e fui pra cozinha iluminada, agora munida de batedeira e tudo o mais.
Foi um desastre. A massa ficou esquisita, talhada. Nem dei bola. Coloquei o bolo no forno enquanto fazia um caramelo para a calda. Queimei o dedo.

E teria ficado muito feliz ao tirar o bolo do forno, se estivesse preparando uma aula de geografia para o ensino fundamental e tivesse que falar sobre diferentes relevos.
Nunca vi um bolo ter tantos montes e depressões numa mesma assadeira. Um horror.
Resolvi experimentar um teco e me senti mastigando o lado amarelo da esponja de lavar louça. Nem ao jogar tudo no lixo fui bem sucedida: a meleca grudou de tal maneira na fôrma que achei que nunca mais a recuperaria.

E fiquei pensando que, de vez em quando, é impossível repetir uma receita com sucesso, mesmo aquelas que são velhas conhecidas e que a gente é capaz de fazer totalmente no escuro, com os olhos vendados. Talvez porque nem sempre dá pra ter a certeza do acerto, talvez porque as variáveis sejam muitas e incontroláveis.

É claro que já estou divagando e nem se trata mais do bolo de abacaxi. A singela experiência doméstica me fez pensar em como os filhos da gente são diferentes, apesar de terem saído da mesma mãe e pai, na mesma casa, na mesma cidade e em condições bem parecidas.

Mesmo assim, não dá para repetir receitas dos mais velhos com o mais novo. E eu errei numa escolha importante que fiz. Achei que, entre tantas mudanças (já que os grandes necessariamente teriam que ir para outras escolas), uma mudança seria algo bom para o pequeno. Então, matriculei meu caçula na primeira escola dos mais velhos, pertinho de casa e onde eles fizeram grandes amigos e nós também. Achei que seria um repeteco da fórmula perfeita: escola do lado e amigos por perto,

Mas ainda que a gente não perceba, o tempo passa, chegam outras pessoas, as coisas mudam. E vi meu filhotinho se sentir castigado, passando as manhãs num silêncio triste, sofrendo a punição de ficar longe dos amigos antigos, de um espaço conhecido e de uma forma de aprender que fazia todo sentido do mundo pra ele. A receita já testada e aprovada, tão eficaz em outros tempos, se mostrou desastrosa.

Sou turrona, mas sei a hora de voltar atrás. E que mãe pensa nos quilômetros a mais rodados por dia quando vê o filho ser acolhido de volta com um carinho imenso, por amigos e professores?
Me senti feliz demais por vê-lo feliz de novo, indo para a escola com seu entusiasmo natural de menino. E lembrei da minha mãe dizendo que nem os dedos da nossa mão direita são iguais, então porque a gente insiste em achar que os filhos também devem ser?

Qualquer dia desses, se houver blecaute, espero ter abacaxi na fruteira para tentar de novo a receita do bolo. Enquanto isso, vive la différence!

18 comentários:

Srta.Formiga disse...

São muitas coisa na balança aos mesmo tempo...e o momento também conta!
viva a diferença!Quem quer ser igual?

c r i s disse...

Ai Aninha, quanta coisa para se pensar... difícil troca de escola, também já passei por essa, filhos são diferentes e a gente só quer mesmo que eles sejam feliz em suas diferenças, e o bolo de abacaxi, será que reproduzir uma queda de energia dá resultado? Podíamos bolar um plano...heheheh! Bjo!

Marilia Baunilha e Patch disse...

Belas palavras! Muita coisa para se pensar e muito bom de ler.

Beijos

maricota disse...

que lindo texto Ana. Adoro seu jogo de palavras que faz o mais simples nos elevar a grandes pensamentos. Saudade de você! Bjs ^_^

Deusa disse...

Dizem mesmo que cada filho e diferente do outro....eu só tenho uma,mas passei pela experiencia de troca-la de escola e de ve-la assim...tristinha,sem vontade.....e um trabalho a mais leva-la para a escola antiga,mais so de ver a carinha alegre.....e la vou eu enfretar filas de carros,sair de casa 30 minutos no minimo mais cedo.....e ver minha bonequinha sorrindo....então vale a pena.
Deusa
vasinhos coloridos

Milena disse...

Ana,estou passando pelo mesmo caso com a minha filha,a da Alice,sabe?E agora estou sofrendo mais um pouquinho após ler o seu texto.Porque a minha lindinha é uma criança cheia de amigos,amada por todos no colégio,inclusive por mais velhos,era quase uma rainha no seu mundo e eu perguntei se ela queria ir para o colégio dos irmãos,ela topou na hora,mas também não está dando certo e ela tem que estudar à tarde e isso fez,junto com as outras coisas,virar o mundo dela de cabeça para baixo.Praticamente falando agora é difícil mudar,já contratei transporte,tive gastos,enfim,não sei o que vou fazer.A festa inclusive é para reunir as amigas antigas de maneira especial, até para ela ver que amigos carregamos sempre.Impossível não sofrer com eles e a vida dela só está começando...Bjs e me responda para fecharmos,ok?

Luciana B. disse...

Ana, eu simplesmente adoro o que você escreve!! Este texto está demais :-) Não sei porque a gente acha que os filhos vão ser iguais e reagir da mesma maneira, e que basta usar sempre a mesma receita. O que vale mesmo é a nossa intuição e o amor ;-D Um beijo,

Carol de Souza disse...

Ai Ana...que post lindo!
eu não tenho filhos, mas lembro muito bem quando minha mãe me mudou de escola como sofri!
Depois passou né...e eu tb não era muito nova ( uns 11), mas que bom que teu filhote voltou a ser feliz na escola!
Beijão e boa semana!

Bruna maria disse...

Ana adoro seus posts e quase sempre me identico,já passei por essa situação dificil e nem pensei,voltei para escola antiga e a felicidade voltou no sorriso da minha princesa.E este bolo,kkk!xero e boa semana
p.s.Tem promoção lá no blog,passa lá.

Dricca Kastrup disse...

Ana, que texto ótimo ! Com certeza vale a comparação entre bolos e filhos. São muitas variáveis mesmo e vale a intuição... Agora, só por curiosidade, você se divertiu fazendo o bolo que deu errado ou estava estressada ?

bjobjo

cristina disse...

Oi Ana,
Como se não bastassem os desafios de criarmos nossos pequenos,ainda administrar as diferenças. Tenho dois meninos (13 e 12 anos) e são como água e vinho, sol e lua, dia e noite, mas no fundo bem no fundo, têm alguma coisa em comum.
Fiquei super a vontade de me abrir com você: no aniversário de meu marido, resolvemos fazer um bolo, eu e meu mais velho, já que o bolo oficial tinha sido encomendado para o dia da festa. Pra não ter erro, comprei uma assadeira de coração e colocamos todo amor e dedicação. Ficou uma porcaria, solou, ficou bem baixinho e pra salvar fiz um brigadeiro pra cobrir, e o pior ele pegou no fundo da panela. Marido ficou tão emocionado com a surpresa que nem ligou e ainda disse que nunca tinha comido brigadeiro crocante, rs. E tem mais, esse fim de semana resolvi fazer um bolo pra tomar com café, tava uma chuvinha. A batedeira quebrou e como estava decidida, fui em frente. Não é que ficou maravilhoso, alto, fofo e com aquele cheirinho de bolo de mãe, um espetáculo! Minha irmã disse que eu sou aquelas donas de casa à moda antiga.
Beijos,
Cris João.
www.recomadres.blogspot.com

Bia Cardeal disse...

Tuas lindas palavras me fizeram marejar os olhos!
Bjs!

Bia

melmaria disse...

Oi...

Lindo o que vc escreveu.

Lembrei de minha mammy querida, sempre dava o exemplo dos dedos que eram diferentes, mas que doeriam igualmente se algum fosse cortado. Que eu e meus irmãos éramos igualmente amados... (explicando o pq de minha mãe precisar dar esse exemplo, eu sou a caçula temporona de minha casa, e sempre queria ser 'a mais querida' hehehe). Sábia mamãe, sábia mamãe :D

Obrigada por sua visita na meu bloguinho.

bjo grande
Kellynha

Vive la différence!

Ma Stump disse...

Lindo texto, Ana! Adoro a forma que mistura os temas e cria comparações super sensíveis que a gente às vezes não percebe no dia a dia. Ótimos pensamentos!

Ana B disse...

Bife à parmegiana, bife acebolado, bife à milanesa. Minha mãe entende o que é a diferença dos filhos - 3 - e dos netos - 7 - e não se importa de preparar as n versões de um bife, de um copo de leite ou de um molho de macarrão para cada gosto... acredita? Eu gostaria de ter este dom porque entender as diferenças e tratá-las com tanto carinho é dom pra poucos... eu até me emociono com a disposição dela e fico feliz que vc esteja rodando alguns quilômetros para garantir ao filhote a escola e os amigos que ele prefere. Parabéns.

harumi disse...

ah, ana, me emocionei de tal maneira que nem consigo explicar (nem entender)!!!nada na vida é igual a outra, né mess?
e eu adoro ler as coisas do seu dia-a-dia e pensar em como serão com meus filhos! daqui a algum tempo eu volto pra contar, tá? rs
beijoconas,
da harumi

Laély disse...

Ah, Ana!...Só uma artista como você, das agulhas e das palavras (que sabe muito bem costurar, sem nenhum trocadilho), para alinhavar assuntos tão diferentes, mas de sentido tão profundo.
Identifiquei-me, pois meus meninos passaram por esse mesmo problema de adaptação, numa escola nova.
No primeiro ano, fui chamada várias vezes à diretoria, para ouvir sobre o meu caçula, além dos muitos "chororôs" dele.
Moramos em cidade pequena; não tinha opção melhor.
Graças à Deus, esse período passou e ele já se enturmou, mas foi bem difícil, a princípio.
(Tá de pé, nosso encontro? Depois, lhe escrevo, passando meu roteiro...)
Abraço!

Feltros Delicados. disse...

Olá Ana, seu blog é lindo!É muito legal da sua parte em poder ajudar as amigas fornecendo os moldes...qto ao texto?É maravilhoso saber que tem mais pessoas que passam pela mesma situação, filhos na escola e um bolo que que ñ sei prq ñ deu certo hehehe.Qto ao bolo, tem alguns que realmente fica melhor bater na batedeira só os ovos, açúcar e manteiga, os demais ingredientes tem que fazer manualmente, mas vale a pena, o bolo fica leve e muito mais gostoso, um ex. a famosa e antiga "Nega Maluca", fica ótima preparando só com as mãos.
Beijinho querida, fica com Deus.