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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Heranças

Quando se é jovem, certos presentes passam despercebidos, pois temos a mania de olhar a vida como se ela fosse estática, imutável. Como se lugares e pessoas pudessem ser preservados e mantidos ad infinitum.
Hoje, se eu pudesse voltar no tempo, visitaria mais vezes a minha avozinha. Comeria mais do biscoito de polvilho frito dela, que nunca cheguei a aprender a fazer. Penteria e colocaria bobes nos seus cabelos grisalhos e finos, sentindo seu cheiro da água de rosas.
E contaria a ela que pretendo continuar sua tradição de fazer uma colcha de retalhos para cada filho. Depois para cada neto. E, se viver tanto quanto ela, para os bisnetos e talvez tetranetos.
Guardo com carinho extremo as duas colchas que ficaram aqui em casa, uma minha e uma da minha mãe.
Todas as colchas feitas pela vó Amélia eram assim: Sempre com o mesmo miolo e repetindo as mesmas cores no centro, mas incorporando tudo que é pedacinho de pano.
Já a que ganhei foi um pouquinho diferente, para minha surpresa: E hoje está na cama da filha, junto com a almofada fofa que veio dessa querida aqui num sorteio pelo twitter.
(Harumi, antes tarde do que nunca, né? Sempre fico esperando o presente estar em uso pra mostrar aqui mas, nesse caso, demorei uma eternidade. Aproveito para dizer que amei o presente.)
Na cama do pequeno, a colcha foi feita pela minha mãe. E também é linda, ainda mais junto com o Petit:
As colchas antigas precisam de reparos. Alguns tecidos ficaram puídos com o tempo e as lavagens. E, confesso, hoje em dia, elas só ficam em uso em tempo de festa ou quando a saudade é muita. Mas tenho um certo receio de mexer nelas, que são absolutamente perfeitas em cada pequena imperfeição.
De vez em quando, sonho com a vó. E acordo com a sensação de ter ganho um carinho durante o sono. Ou de ter ouvido sua risada engraçada, entrecortada pela tossinha seca. Ou, então, de ter dormido no pé da máquina, ouvindo o barulhinho constante do pedal. E me pego pensando como é possível não existir a palavra saudade em outras línguas.
Miss you, grandma.

30 comentários:

Margaret disse...

ai que post mais lindo esse. lembrei como aqui foi tudo tao parecido.
Minha vó tambem fazia essas colchas, e como são parecidas viu? lembro dela passando ferro em cada pedacinho de pano. E todos os netos ganhavam uma.
E eu tambem sonho muito com ela e as vezes me da uma saudade do jeitinho dela sentada na varanda da casa, rezando, costurando, fazendo crochê.
Amei voce me fazer lembrar mais ainda da minha vó.
beijinhos
www.margaretss.com.br

maçaroca da dê disse...

Viajei nas suas e nas minhas lembranças... Também se chamava Amélia, era minha avó paterna, e na casa dela também estavam lá as colchas de retalhos (eu só lembro de falarem assim!). Não sei de quem era a arte, se dela ou da minha única tia por parte de pai, os três já partiram, então não ficou ninguém prá contar a história nem prá me ensinar. Mas lembro de uma coisa engraçada: eles moravam "na roça" e esse era o edredon de lá da época, mas era muito pesado(não tinha manta acrílica, o enchimento era de paina!!)então na hora de dormir, meu pai falava: "vocês já se ajeitaram?" e cobria a gente... ninguém se mexia embaixo daquelas cobertas, até de manhã!! rsrsrs!! muitas saudades

Cecilia e Helena disse...

Ana
Acho lindo colcha puída e velha, cheia de história. Sua avó fazia maravilhosos log cabins! Também tenho muita saudade das minhas avós.
Beijo
Helena

harumi disse...

ai, adorei a história. me emocionei! ainda mais estando eu juntinha (sim, foi um pedacinho de mim junto com o gato) da colcha da vó Amélia. nossa, que honra!!!!
beijoconas.
da harumi
(www.sati.art.br)

Andréa disse...

Olá, Ana.
Me identifiquei completamente com esse post. Sou apaixonada pelo patchwork, praticado na minha família primeiro pela minha avó materna e, depois, pela minha mãe. Ainda estou engatinhando, mas posso dizer que nenhum trabalho manual me encanta mais do que esse.
Seguindo os passos delas, estou costurando uma mantinha para uma amiga que está grávida. Também publiquei no meu blog um post sobre a colcha dos meus avós: http://casa-de-reboco.blogspot.com/2010/01/colcha-dos-meus-avos.html.
Um beijo,
Andréa.

rosana sperotto disse...

Ana, querida, colcha de retalhos acho que mexe com muitas de nós, uma ancestralidade que parece trazer para perto a capacidade de reunir, agregar, dar unidade à vida e nos aproximar com a história de tantas mulheres, como a de tua avó. Gosto de pensar nesses pedaços da gente que ficam e seguem contando um pouco da nossa trajetória... Obrigada por nos lembrar desses tesouros. Beijo

Laély disse...

Ô, Ana! Tão lindas, as colchas e essas mulheres maravilhosas, incluídas você e a Bia!
Mas o legal é deixá-las assim, com as marcas do tempo e das histórias que elas ajudaram a acolher.
Um abraço!

Maris disse...

Ai, Ana, olha eu aqui chorando por causa deste post!!! Minha vozinha ainda tá aqui, mas sempre choro imaginando o dia em que ela não tiver!!! É meu porto-seguro na terra, é mais que uma mãe pra mim!!! E dou tanto valor às coisas dela, de vez em quando ela me dá algo que vi a vida toda na sua casa, e que agora ganha um lugar de destaque aqui em casa!!! Qdo ela era nova, fazia enxovais bordados para fora, costurava, tricotava, bordava como ninguém!!! Mas hoje em dia tem um tremor nas mãos já há vários anos que a impede de fazer essas artes manuais, portanto, não pôde me ensinar a fazê-las!!! Mas imagino como seria maravilhoso aprender a tricotar e a bordar com minha vó!!
As artes da sua vó são lindas e o jeito como vc fala dela é encantador!!!!
Bjos da Maris!!
www.casadamaris.blogspot.com

Shilola disse...

Oi Ana...
Emocianada com o post... A minha avó tb fez colchas para todos os filhos, netos e para os dois bisnetos...
Mas não deu tempo dela terminar a da primeira bisnetinha, minha filhota, que tá em fase final de produção aqui na minha barriga!
Entendo a sua saudade... E entendo o valor de cada um desses retalhinhos unidos com tanto carinho que fazem de cada colcha uma declaração de amor!
Bjocas,
Carol

Cris Nagawa disse...

Ana...
Me identifiquei muito com esse post, minha avó paterna também fazia colchas de retalhos para cobrir o sofá, ja´que antes os sofás eram de "napa" ou curvim e muito geladinhos e escorregadios.... pena que não ganhei nenhuma, bem acho que ela não daria conta de fazer tantas colchas assim....

bjs

Decor e salteado disse...

Ei, Ana!

Lindo e comovente post. Convivi apenas com uma avó, e por um tempo curto: 14 anos. Mas lembro dela sempre sempre e com muita saudade: do carinho, dos bilhetes, da colchinha feita de fuxico pra cama da minha boneca, da casinha arrumada e ela sentada, nos esperando, com um bolo pronto...

Que privilégio conviver com essas mulheres. Agradeço (emocionada) a Deus por cada momento que vivi ao lado da vovó!! Obrigada por ativar, ainda mais, em nossas memórias lembranças tão deliciosas.

Grande abraço,

Lu
http://decoresalteado10.blogspot.com/

Priscila disse...

há recordações que mesmo que sejam acompanhadas com uma lágrima e com a palavra saudade, aquecem um pouco daquilo que na realidade somos, humanos, pessoas que ama-mos e queremos amar.
muito bonito.
beijinhos

ana sinhana disse...

Queridas,
que bom que as fiz lembrar do amor e do colo das avozinhas de vocês. Ontem eu tinha mais para escrever mas, confesso, fiquei meio emocionada com as lembranças e parei no meio do caminho.
Beijos em todas,
Ana

Cris Paz disse...

Que texto lindo! Adorei o Petit aí, neste cantinho tão especial.
Bj

Ozenilda Amorim disse...

Oi ana,
Adoro colcha de retalho assim, simplesinha. Tenho uma, mas já está tão velhinha, que estou até evitando usar.
Bom feriado para você.
;)

maricota disse...

acho que esta é a melhor parte da vida: recordar, guardar lembranças e revive-las um pouquinho a cada dia. Vez ou outra minha cabeça foge pra longe também, perdida em memórias do que já passou, mas que foram importantes o suficiente pra ficarem guardadas e vivas por tanto tempo dentro de nós. Delícia de post Ana! Confesso que também me emocionei n_n Bjs

Flávia Ferrari disse...

Ana, delícia de post.
Esquentou meu coração.
Fiz algo parecido com o que você descreveu neste final de semana - às vezes voltar ao nosso passado faz um bem tremendo.
Um beijo enorme

Eliane disse...

Ana seu post ficou divino!!!
Minha avó tem 93 anos. esse fim de semana que passou ela esteve conosco,Ela não fez patch pra nenhum de nos mas costurou nossas vidas de uma forma tão completa que somos como uma colcha de retalhos. Fez meu vestido de 1º comunhão (guardado com todo carinho a 28 anos), costurou literalmente pra todos nos.É uma guerreira assim como a sua. Beijos da Eliane.

A Lidiane disse...

Ana, Confesso que fiquei com saudade da minha vozinha de cabelos branquinhos e fininhos. Acho que vou aproveitar o feriado pra visitá-la.
Sabe que ela tem uma colcha de patch que mãe dela (minha bisavó) fez pra ela?!?! É linda também e ela sempre arruma a cama com aquela colcha quando a gente vai passear por lá. É bem coisa de vó ser assim fofíssima, né?
BEIJOS!

Berê da Casa Dory disse...

Tudo que vc disse é a mais pura verdade....não tenho mais avos, mas tenho minha maezinha , mas esta tao longe de mim, ja que vivo em Portugal!....ate chorei lendo seu post....me deu saudade de minha maezinha e de sua cama tao cheirosa....bjus

Super Chocolate disse...

Eu também tenho a sorte de ter colchas feitas pela minha avó. Dois dias antes de ir para o hospital, ela ainda estava terminando uma.... Costurou a vida inteira numa Singer sem motor. Nunca quis se modernizar. Sábia, tinha consciência que as coisas antigas são muito melhores.

Beijos. Amei o post. Amo seu blog!

Vivi B.

Bia Cardeal disse...

Meus olhods marejaram... Vai fazer um ano em maio que perdi minha avó (aos 95 anos!). Ela nunca foi costureira, mas qdo criança, fazia à mão umas bonecas de meia fina pra mim e minha prima. Adorava ficar na casa dela, que fazia uns bolinhos de banana deliciosos!! Ela era puro carinho e aconchego! Um dia, quero me tornar uma avó assim!
Seu blog é lindo!! Pura poesia!

Bjs!

Eliene Vila Nova disse...

oisss
posso te confessar uma coisa?
você não têm ideia do quanto fico feliz quando recebo a sua visita, afinal sou sua fã de coração mesmo.
rsrs
e nossa eu amo tudo que tem história, lembranças de tempos que não voltam mais né?
que herança caprichada, eu não cheguei a conhecer minha avó, um apena.
linda postagem, aliás difícil você fazer algo que fique menos que lindo.
beijos
beijos
beijos

kokoro disse...

Ai!!!!! Que saudade que deu da Vó Maria! Ver você falando da sua parece que eram a mesma avó, fazia exatamente as mesmas coisas!

Ana B disse...

Ana, hoje já postei sobre minha avó, Anna Luiza, falando de comidas, mas poderia ser sobre colchas de retalho, post que já idealizei. Nós a chamávamos de Sinhana por gostar tanto de costurar.... me identificava com seu blog pelo nome, hj um pouco mais pela história! Ela tb costurava colchas de retalhos, cada um dos 8 filhos tinha a sua, alguns dos inúmeros netos tb. Eu, tive sorte de ter e está muito acabadinha tb porque usei demais quando morava aí em Sampa. Minha mãe colocou um forro de lãzinha e era meu cobertor. Minha saudade da minha véia é de doer, mas tb de conforto pq ela foi vitoriosa na sua vida de pobre, era muito prendada - ela fiava e tecia em lã tb - fazia bolinhos maravilhosos e de todo mundo no mundo, acho que tinha amor especial por mim e por meu tio Zezão. Nos identificávamos - eu com 10 anos e ela com uns 70, eu lia gibi para ela e ela me fritava bolinhos.
Vc falou do cheiro: ela era desdentada, no final da vida, e quando minha filha nasceu eu achava que os cheiros delas eram parecidos, até que descobri que era cheiro de boca sem dentes, um cheiro muito mais limpo e adocicado! Hj foi uma noite de emoções.... era dia de lembrar da minha véia. bj e ótimo feriado

Sika disse...

Oi Ana que vontade que me deu de poder abraçar minha avó.
bjs

Taia Assunção disse...

Minha avó sempre foi de crochê, já mamãe faz essas colchas de tecido. Muitas vezes pregando um tecido no outro com crochê, imagine o trabalhão. Mas a observação que tu fizeste no início do post é verdadeira, levamos tempo para valorizar peças como essas. Minha caçula ganhou da bisavó duas colchas quando nasceu e lá se foram 16 anos, a de lese coloquei no uso e o que era rosa já está praticamente branca, mas a de crochê só coloquei a pouco. A postei aqui http://zambiameularbrasilmeujardim.blogspot.com/2010/02/hunrum.html é linda de viver. Também coloquei na moldura um crochê feito pela minha avó e que eu herdei. Beijocas!

maristela disse...

Que lindo, minha avó também fez duas colchas para mim quando eu casei (19 anos atrás), de vez em quando dá uma saudadona e essa mesma sensação de que poderia ter dado-lhe mais atenção, ter escutado mais ela e todos os outros avós, enfim, acho que só percebemos essas coisas quando ficamos mais velhas......

jefhcardoso disse...

Olá Ana! Esta semana estou divulgando uma “nova” postagem. Trata-se de um conto; que na verdade vem a ser uma reedição de meu blog. Sua postagem original ocorreu em 13.02.09; sendo esta a minha terceira postagem no blog. Naquela ocasião este texto não recebeu nenhum comentário. O texto é “O Sr. e o Dr.”. Espero que você, tendo um tempinho, o aprecie.
Um grande abraço, minha gratidão e desejo que tenha uma ótima semana!

Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

blogmarflorido@gmail.com disse...

Lindo post! Me emocionei lembrando da minha vózinha! Ela era costureira tb, mas fazia só roupas, lembro que ela fez uma roupa pra eu dançar lambada... como eu amava rodopiar com aquela saia! Outro talento que ela tinha era o ponto-cuz. Fazia com tanta perfeição, que mesmo após 12 anos de sua partida os que minha tem ainda estão perfeitos! Lindas as colchas feitas pela sua vó!

beijos

beijos