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domingo, 18 de abril de 2010

Quac!


Desde sempre, sou leitora contumaz de livros, revistas e revistinhas. Na minha infância, o melhor momento era voltar da visita semanal à casa da tia na Vila Mariana e esperar quieta e com o coração acelerado que meus pais parassem na banca do Ibirapuera. E que não saíssem de lá só com o jornal de sábado, mas também com alguma figurinha, álbum ou gibi.
Eu era o tipo de criança que não pedia, só esperava (acreditem, tive uma infância de esperança eterna). Mas me garantia lendo os gibis dos primos grandes. Até Fantasma eles tinham. E também uma cópia caindo aos pedaços de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho.
Lá pelos dez anos, resolvi a questão de como ter livros por perto: saí escondida e fui a pé até a biblioteca Álvaro Guerra, uma verdadeira aventura. Cheguei lá e descobri que havia um mundo de possibilidades e letras e que, para acessá-lo, eu só precisava de um comprovante de endereço.
Mas nunca deixei de gostar dos gibis. Exceto quando aparecia algum teste, desses meio semelhantes às revistas de peruas femininas. Naqueles em que as questões levavam o pobre leitor a se identificar como um dos personagens, batata: eu sempre, eternamente, seria o Pato Donald ou seu personagem similar em outras publicações.
Isso me irritava profundamente (quac!). Pôxa, menina pato Donald? Por que eu nunca era a Margarida, a Minnie ou pelo menos a Clarabela (quac!)?
Hoje em dia, só posso culpar as circunstâncias da vida. Todos os mínimos acontecimentos me levaram a ser irritadinha, neurótica e estourada. Já cheguei a pensar na possibilidade de uma conspiração universal das pequenas coisas contra a minha pessoa.
Ontem mesmo, camelando na 25 de março junto com uma amiga querida atrás de coisas lindas pra deleitar minhas clientes, chegou aquele momento de aperto. Não, não foi meu cartão de crédito estourado, mas sim minha bexiga cheia.
Enquanto eu trançava as pernas no caixa real (vulgo, saída do Rei dos Armarinhos), minha amiga descobriu um banheiro decente na loja. Paguei e corri pra lá e claro, estava ocupado. Minutos que mais pareceram séculos depois, eu e minha amiga ouvimos uma descarga. Mais uns minutos e a porta se abre: sai de lá uma senhorinha com sorriso amarelo, pedindo desculpas pela demora. Entro no banheiro e... quac! Tinha que ser eu a entrar no banheiro (rima não-proposital) pós-véia-com-diarréia?
Isso fora as inúmeras caminhonetes com plaquinha de "Faço Carreto" na minha frente quando estou atrasada, bem na estradinha de mão simples daqui do condomínio. Ou dos caixas de supermercado mais lerdos do mundo, que sempre "me escolhem". Quac!
Hoje mais madura e com menos momentos quac!, penso que talvez tudo isso tenha tido um propósito maior, alguma missão escondida por trás de tantos momentos quac! Talvez rir de si mesmo seja uma arte que a gente deva começar a aprender na mais tenra infância. Talvez, rir do outro (no caso, rirem de mim) seja um destino inevitável.
Bom domingo sem quacs! pra vocês.

11 comentários:

Marilia Baunilha e Patch disse...

Adoro ler seus textos. Paro tudo para ler o que você escreve. Sou sua admiradora profunda na arte das palavras. Quem mais definiria momentos irritantes pelos quais todas nós passamos, umas mais outras menos, como momentos quacs?
Obrigada.

Beijos,

Eneida

Taia Assunção disse...

Concordo com a Marilia, seus textos são excelentes. Nada cansativos e acabamos nos identificando com várias situações que você narra aqui. Continuo gostando de gibis e não me importo em relê-los. Quanto aos "quacs" os meus teem diminuído na mesma proporção que a idade vai aumentando. Estouradinha é?! Cadê os resquícios do sangue nipônico?! Beijocas!

Coisas simples da vida disse...

Eita, que comentário tão meio que igual... mas vai lá... concordo com minhas amigas do andar superior(rsrsr), você escreve bem demais, da conta(como diz o mineiro), nos vemos também nos seus textos... agora mesmo me vi lendo todos os gibis possiveis da minha infância... e lia também fantasma(rsrsr),gosto até hoje... mas quase não leio mais( os gibis)... e quando aos "quacs" da vida... o jeito é ir relevando mesmo... se vive melhor pode ter certeza.
Um beijão pra você....
Telma

Livia disse...

Ai, acho que também sou parente do Pato Donald! Vivo achando que essas coisas só acontecem comigo e me irritando profundamente... um dia aprendo a dar risada e dizer menos "Quac"
beijos...

Luciana Betenson disse...

Ana, estou aqui passando maaaaal, juro... EU ia a pé na Biblioteca Álvaro Guerra quando era criança. Meus avós moravam na rua Almeida Garret, a de trás da biblioteca. E eu morava a uns 15 minutos de lá, perto da Praça Panamericana, onde meus pais moram até hoje. Aliás, meu avô vai fazer 99 anos e ainda mora naquela rua... passei horas muito felizes da minha infância lá, pegava livros e nas férias tinha aulas de artesanato, lembra? E também me identifico com sua história dos gibis. Na minha casa era às terças-feiras, quando minha mãe ia ao supermercado. Podíamos escolher UM gibi. Eu lia tão rápido que acabava antes de chegar em casa. Ô dó :-)
Beijos!!

ana sinhana disse...

Eneida, Taia e Telma, são as coisas comuns do dia-a-dia que nos unem, né?
Nada de novo mas quando outra pessoa relata é possível a gente se identificar. E dar risada!

Lu do céu! Vc está falando sério?
Mulher, acho que temos alguma missão a cumprir juntas, porque é muita coincidência, né?
A gente deve ter se encontrado por lá. Assim como devemos ter nos encontrado pela Vila anos mais tarde. Ou em Ribeirão Preto!
Uau!
bjs

Carol Fonseca disse...

Olha Ana, os caixas mais lerdos aqui do Rio são por minha conta, ok?
E as pessoas mais lerdas andando pela calçada também!

Beijo,

Ana Paula disse...

Olá acabei de conhecer seu blog... simplesmente adorei... os seus trabalhos são maravilhoso... Parabéns!!!

Visite o meu bloguito...
http://tudojuntoarte.blogspot.com

T+ abraço

jeroselino disse...

Oh minha linda!
Se você é o Pato Donald eu sou sua Margarida. Te amo.

ana sinhana disse...

Te amo, minha Margarida!
Mas acho que, ultimamente, vc anda muito mais Pato Donald do que eu...

ana sinhana disse...

Oi Ana Paula, obrigada!

Oi Carol! Vc também solta muito quacs com a lerdeza alheia?
hehe
Bjs