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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A espera

Logo no comecinho da semana, pensei que os dias seriam curtos e, como nunca faço, elaborei um cronograma com as tarefas todas por dia, pra dar conta de tudo.
Santa ingenuidade, Batman!
Antes de me programar, eu deveria ter me lembrado da primeira grande lição sobre ter filhos: a partir do momento em que nos tornamos pais, nosso tempo não é mais nosso. A começar pelo sono. Nunca mais dormimos o suficiente. Primeiro, porque os filhos chamam pra mamar; depois, porque acordam assustados no meio da noite e se esparramam entre a gente, bem à vontade; e, na atual fase aqui em casa, porque incorporamos uma função extracurricular: a de motoristas.
Mas, juro, apesar da função mãemotorista ser muito chata, mil vezes ter dirigido mais do que o habitual nesse começo de semana. Já antecipo que estamos todos ótimos e no conforto de casa, antes que os mais afoitos comecem a se preocupar.
O fato é que tive que levar o filho grande para o pronto socorro na segunda-feira, por causa de um monte de picadas de carrapato seguidas de febre. Parece exagero, mas aqui onde moramos, por causa dos casos fatais de febre maculosa, achamos que seria melhor pecar pelo excesso e não pela falta (segunda grande lição do manual da paternidade!).
Depois de assistir as novelas das seis, das sete e das nove, fomos atendidos. E o médico, ao fim da consulta, disse que meu filhão teria que ser internado para os exames e para já começar a medicação, mesmo sem sabermos (ainda) o resultado.
Não fiquei desesperada, pois senti tudo aquilo como uma precaução, um cuidado com a vida valiosa e amada do meu menino.
Troquei a "guarda" com o marido lá pela uma da manhã e voltei logo cedo, na terça, sem ter conseguido dormir.
Aí sim, foi um teste de paciência, tanto pela espera da especialista, quanto pela inquietude juvenil que, o tempo todo, dizia que aquilo tudo era "um absurdo", que iria arrancar o soro e voltaria de ônibus pra casa. E pelo sono, porque nem as mães são de ferro!
E, nesse meio tempo, tentando não olhar para os caninhos e furos nos braços longos do meu menino, me peguei conversando com o Seo Waldemar, que habita o hospital há 33 longos dias à espera da sua terceira cirurgia. Tudo por causa de uma reles sinusite, que acomodou um fungo raro e lhe paralisou o rosto.
O mais impressionante era o bom humor do Seo Waldemar. O homem tratava com simpatia cada um que entrava no quarto, dos enfermeiros de todos os turnos até a faxineira (essa, inclusive o cobrou se ele já havia verificado "aquele negócio" na internet para ela).
Mais uma vez, pensei na passagem das horas, talvez mais lenta pra quem teve que se acostumar à monotonia do hospital. E na espera, tão mais angustiante nesse caso. Naquele momento, perdi qualquer ânsia de me lamentar ou de pensar no trabalho acumulado sobre a mesa.
E pensei na única espera que dá saudades e nas únicas pessoas que esperamos por longos meses, sem nem sentir irritação. Sim, somente os filhos são capazes de nos fazer esperar com alegria. E nos fazem até ter saudades da espera em si (qual a mãe que nunca se pegou pensando com nostalgia no barrigão de grávida?). Só eles tomam nosso valioso tempo, criando uma contagem diferente na nossa vida.
Uma vez mais, fico imaginando que só o tempo e a conquista de seu próprio momento de espera farão meu filho entender o hiato forçado dos últimos dois dias. Um dia, meu filho será pai e só então esse tipo de "absurdo" fará sentido. E, quando chegar a hora, espero que eu também possa participar de mais esse recomeço de contagem. Tudo a seu tempo.

16 comentários:

Marilia Baunilha e Patch disse...

Lindo texto, Ana! Quanta verdade e sabedoria há nele.

Beijos e obrigada,

Eneida

Katima disse...

Bom dia, Ana.
Ser mãe é tudo de bom, mas quando um dos filhotes ficam doentes a angústia toma conta, posso imaginar o sua, esperando por um resultado. Lendo o texto vejo como ficamos ligadas nas amigas do outro lado e fiquei muito feliz em saber que o filhão está bem. E você, está certa, é melhor exagerar nos cuidados para termos momentos de calma. Beijos e bom restinho de semana.
Kátima

Cecilia e Helena disse...

Ana, lindo texto! Espero que esteja tudo bem com o seu filho. A gente, de fato, só entende os 'absurdos' depois que é mãe/pai. E são exemplos como o do seu Waldemar que nos injetam ânimo e paciência para enfrentar os obstáculos do dia-a-dia!
Beijão
Helena

Jacque - A noiva do ano disse...

Oi, Ana! Que bom que seu menino está bem. Estou conhecendo o que é esta espera e até para uma pessoa mega ansiosa como eu é realmente uma delícia. Dei o nome de "espera feliz"! Bjs

Coisinhasdalili disse...

Linda postagem, Ana. Mande um beijo pra ele. Espero que se recupere logo. Bjs

Rosana Sperotto disse...

Ana, lembrei daquele trechinho do Pequeno Príncipe que diz mais ou menos assim: "Se você vem às 4, desde as 3 eu serei feliz". A intensidade do tempo quando lida com nossos amores é mesmo fantástica, tanto nos momentos de alegria quanto nos de aflição, né? Que ele se recupere rapidinho. Beijos pra vocês!

Milena disse...

Ana e apesar de tudo,ainda temos a sensação de que passa tão rápido,não é?
Acho que tudo o que é bom passa rápido...
E esse caminho;de pais e filhos,onde ensinamos e aprendemos é que torna tudo mais interessante.
Mas olha,depende de como olhamos o mundo.
O seu olhar é especial,assim como o do seo Waldemar,que aproveito para mostrar aos filhos o exemplo,que também acham absurdo,ter que sempre lavar o nariz,rs!

maristela disse...

Que preocupação danada esses pentelhinhos nos dão....mas Deus me livre não tê-los. Os trabalhos, ah, o que são os trabalhos para uma mãe perto de um filho doente. A gente faz o mundo parar. Lindo seu texto.

Entre Feltros e Tecidos disse...

Que texto fofo, não sou mãe mas fico imaginando td isso e que um dia quero passar por td isso rs!
Bjks
Marília

Ruby Fernandes disse...

É verdade Ana querida, só quem tem filho saberá apreciar seu texto... e com lágrimas nos olhos!
Desejo que seu menino de braços longos se recupere bem rápido viu?
bjo para os dois =)

Fala, Mãe! disse...

Que lindo seu texto, Ana! E as vezes Deus põe em nosso caminhp umas figuras feito seo waldemar para a gente refletir um pouco né? Espero que esteja tudo bem com deu filhote, beijo

Silvana disse...

Mais uma vez...lindo...lindo....também sinto muitas saudades da minha barriga de grávida, das duas......amo minhas filhas, me preocupo, me faço de corajosa, mesmo que esteja desesperada por dentro, espero, espero, espero, pacientemente, antes mais 5 minutos no parque, hoje pra acabar de ver o filme com as amigas, mas espero, e como é bom esperar por quem a gente ama tanto...ah...e também espero o marido, senão fica todo enciumado....beijos e continuemos esperando sempre....

Taia Assunção disse...

Somente nos tornando pais é que passamos a entender esses 'absurdos'...lembro do marido falando para a mãe dele: "Mãe, agora entendo o que a senhora sentia quando via minhas notas baixas".
Quando eles adoecem, nos fortalecemos para cuidar deles. E as dores de amores, ah, essas acabam conosco. Saudades de quando os meus eram miúdos e podia levá-los para onde quisesse. Quando a preocupação era com a febre, com a dor de barriga, com o medo de fantasmas. Beijocas, melhoras para o seu menino grande.

Viviane Polido disse...

Tão bom saber que existe gente como você por aí, Ana. O mundo está carente de Mães-de-verdade e quando me deparo com uma me sinto na obrigação de elogiar. Grande abraço

Laély disse...

Espero que já estejam todos bem, e em casa.
Apesar de viver dentro de um hospital, confesso que só de pensar em ficar numa cama, sem ter o que fazer me assusta! O tempo, no caso de quem espera doente, deve passar muuito mais devagar!

Márcia Lima Palamim disse...

Realmente, tem hora que cronograma nenhum resiste. Concordo totalmente que os filhos são o nossomaior aprendizado de que a ordem das coisas nem sempre é aquela que estipulamos. Mas enfim, vamos seguindo nessa tarefa árdua e maravilhosa que é cuidar deles. concordo totalmente com suas palavras finais: só dá para entender isso quando se é pai ou mãe. Parabéns pelo texto. Beijokas.