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sábado, 19 de outubro de 2013

With tangerine trees and marmalade skies...

A Lucy chegou aqui em casa depois de uma experiência traumática, de ambos os lados. Eu estava grávida do caçula e tínhamos o Pongo, um dálmata absurdamente agressivo e traiçoeiro. Meu marido, que sempre teve dálmatas e todos muito bonzinhos, levou o Pongo pra uma fazenda sem crianças por perto, depois que ele mordeu o rosto da minha filha e me fez pular a janela grávida de sete meses para salvá-la.
Nesse momento, decidimos que as crianças só poderiam ter um cachorro que fosse uma manteiga derretida, uma banana madura, uma bobona.
Daí, apareceu a Lucy, que tinha sido abandonada sem coleira numa avenida movimentada, assustada, pequenininha e doente (quando levamos na veterinária, descobrimos que ela estava com o baço comprometido por picada de carrapato; ela foi operada e ficou em coma, com hemorragia, mas foi salva e veio pra casa com o abajur no pescoço).
Eu sempre fui durona com ela, que morria de medo da Tarta, a tartaruga das crianças, latia pros mosquitos, revirava o lixo (só o reciclável, porque ela era fina), roubava meus tecidos e havaianas (só as minhas, humpf!). Sempre falei que não gostava dela e que só dava a comida, levava pro banho e para a veterinária porque não sou tão ruim assim e me comprometi com os cuidados.
Mas não era verdade e eu só descobri isso há pouco tempo, quando percebi que ela não ia ficar mais na porta do ateliê, nem ia fazer festinha na hora em que eu trocava a água do pote por água fresca e colocava comida. Ela ficou ceguinha, surda, passou a dormir o dia todo e, de um momento pro outro, parou de comer.
Acho que isso é a coisa que mais me desespera no mundo: alguém que não come.
Levamos na veterinária mais bacana da cidade, a pessoa mais doce e iluminada que conheci nos últimos dias, que se encantou com a doçura da Lucy e cuidou dela com muito carinho (na clínica, ela ficou conhecida como Lady Lucy, porque era muito educada e boazinha). Obrigada pelos cuidados com a Lucy e com a gente, Tania!
Mas veio o diagnóstico: insuficiência renal. Fizemos o tratamento com soro e passamos a fazer a papinha caseira indicada pelos nutricionistas, porque a ração era cara e não conseguiríamos bancar. Ela voltou a comer e eu, no meu otimismo, achei que a gente tinha ganho pelo menos mais um ano de Lucy no quintal.
Enfim, quando o rim parou de vez e ela deixou de andar, de tão fraquinha, vimos que era hora. Mas entre entender, racionalmente, que é hora, e deixar o bichinho partir tem tanta dor, tanta tristeza... e eu nunca imaginei isso, nunca sequer pensei que seria tão difícil ver os olhinhos dela fechando pra dormir e não voltar mais.
Um dia antes, meu caçula reclamou que não tinha nenhuma foto junto com a Lucy. E eu entendi que o amor canino é uma coisa muito misteriosa, porque foi a última vez em que ela ficou de pé, como se soubesse e estivesse atendendo o desejo de um irmão mais novo, mesmo que fosse um esforço além da conta. Recebeu o carinho, tirei as fotos e ela voltou a dormir.
Hoje, logo cedinho, o quintal estava silencioso. Parece até que as maritacas deram um tempo, em respeito à passagem da Lucy pro céu canino.
Sei que meus filhos tem grandes amigos e a Lucy foi um deles. Era ela que escapava para acompanhá-los nos passeios de bicicleta; era ela quem pulava de sopetão na piscininha de plástico junto com eles em dias de muito calor; e era ela quem pedia carinho e, quando eles paravam de dar, levantava a patinha pedindo mais. Isso tudo em troca de um quintal, ração e água.
 E eu fico me perguntando:  como pode existir amor assim, em troca de tão pouco? como um ser pode ser tão doce (embora tão fedidinha...), tão cheio de bondade?
Acho que sempre vou lembrar da Lucy assim, como a mocinha danada que fugia pra ver o Chico, o namorado vira-lata da casa da frente. E que dormia na porta do meu quarto, fazendo os barulhos mais esquisitos. E que era companheira das brincadeiras e de todos os momentos dos meus filhos. Mesmo quando eles cresceram e pararam de brincar, ela continuou lá no quintal, esperando e se alegrando com pequenas doses de carinho.
Hoje, eu sinto saudades e entendo que vida desses pequenos seres é muito curta, muito pequena. E que a Lucy veio para amolecer meu coração de pedra e me fazer perceber o quanto o amor é importante, mesmo concentrado nesses poucos anos. E que a gente tem que viver e cuidar desses bichinhos, sabendo que eles se doam e amam e se entregam como mais ninguém. Sou muito grata por esse amor que vai ficar na nossa lembrança para sempre.
Fique em paz, Lucy in the Sky with Diamonds. Você cumpriu sua missão.

35 comentários:

Flávia Tunes disse...

Lindos sonhos para a Lucy e consolo para vocês, que compartilharam desse amor tão puro.

jeitomineirodeser disse...

É Ana, estes nossos amiguinhos são assim mesmo, nos amam e amam e amam, são fieis e carinhosos e quando se vão deixam uma saudade danada...
Um abraço!
Egléa

Gabi disse...

Chorando muito aqui...

Sinto muito muito muito... Dois dos meus cães morreram pelo mesmo problema.
A casa fica um absurdo vazia, silenciosa e conviver com a falta, é o que mais dói.

Que o seu coração amolecido seja preenchido por um amor ainda maior.

Carol disse...

Poxa, esse post me emocionou aqui, estou em lágrimas.
Ah... como é grande a dor dessa partida, mas ainda bem que ficam em nossas memórias os melhores momentos e a certeza de muito amor.
Beijos

Camila Ateliê Imaginário disse...

Ana,
sempre fui mais uma daquelas leitoras silenciosas, que gostam de ficar no cantinho...
Mas houve uma coincidência, estava tocando uma música que me emociona e de repente abri nesse post. Dou um doce se adivinhar o que aconteceu...Histórias de bichinhos sempre me emocionam, mas a maneira que você escreve é covardia - fiquei entre lágrimas e sorrisos. Você é fantástica!
Beijinhos da tua fã,
Camila

MUITO POUCO EU SEI disse...

Muito emocionada com seu post. Sei o que é isso, passei por essas perdas algumas vezes.

harumi disse...

ah, que lindo, Ana! tenho certeza que a Lucy sabia de todo este amor!
beijocas com os olhos cheios de lágrimas de carinho.
da harumi

p* disse...

Eu nunca choro a ler blogs...que bonito! Lucy in the sky...a correr pelos campos, cheia de paz! :)

malu disse...

Oi, Ana, a cachorrinha da minha mãe de 17 anos, está com o mesmo problema. Acabamos de voltar do veterinário agora, onde ela foi medicada através do soro...como sua Lucy. E ainda somo a esse fato, o cuidar da minha mãe que já não é mais uma jovenzinha e para quem as perdas devem doer mais ainda. Me interessei pelo seu comentário da papinha, vouprocurar esta receita, quem sabe nossa Brisa se anime a comer um pouquinho. De resto, só posso pedir que todos nós daqui e voces daí possam seguir em frente, sabendo que o melhor foi feito, nas horas de alegria e agora, neste momento de tristeza. Sintam-se abraçados por mim e pela minha família.
Maria Lúcia

Ana Matusita disse...

Oi Malu, tudo bem?

a papinha é composta por arroz branco, um pouquinho de carne magra ou peito picadinhos e feitos sem sal e ovo cozido (colocamos 2 ovos picadinhos para duas porções). Pode colocar azeite também.
Espero que a Brisa melhore.
Bj,
Ana

Ana Matusita disse...

Agradeço a todas vocês pelos comentários carinhosos e pela amizade!
Sem dúvida, a Lucy está no céu com diamantes.
bjs,
Ana

Flavinha Gomes disse...

Linda a Lucy.
Deus a receba.

Flávia Mergulhão disse...

Olha sempre pro céu que ela estará lá!Com as estrelas,brilhantes e diamantes!
Linda história dessa moça e sorte dela de encontrar vcs pelo caminho!
Descanse em PAZ,Lucy!
Beijocas

Beth disse...

Passo seguido por aqui, sou sua seguidora, mas creio que nunca comentei.
Hoje senti um imenso carinho por você, pelo bem que fizeste à Lucy até o final de sua vidinha terrena.
É muito complicado perder um companheirinho, mesmo no meu caso que cuido de muitos, ainda não aprendi não lamentar.
Sugiro que adotes outro cãozinho, nos abrigos e com protetores são tantos precisando de carinho...
Beijinho,
Beth

AUDENI OU Dona Mocinha disse...

Chorei ao ler!!!

Já passei por isto e jamais vou estar preparada p/ passar novamente, apesar de ter muitos filhos de 4 patas.

Nem tenho o que falar, estou com um nó na garganta, algo que só sabe o que é quem ama estes seres abençoados que vem ao mundo p/ nos amar incondicionalmente.



Audeni

Ana Carolina disse...

Sinhana seu texto me fez chorar, nem sei o que falar.
Bjs

Marcele Leite disse...

Quanta emoção nas palavras...
lucy certamente está orgulhosa de vc! :)

Pil disse...

Que tua família fique bem! Perder esses seres tão puros e companheiros é sempre muito sofrido! Beijos e abraços fortes!

Andréa Moreira disse...

OI ANA,SINTO MUITO PELA LUCY,OUTRO DIA LI NUM BLOG"ELES VIVEM MENOS PORQUE JA NASCEM AMANDO DE UM JEITO QUE NÓS HUMANOS LEVAMOS A VIDA INTEIRA PARA APRENDER" QUE A LUCY NÃO TENHA PASSADO EM VÃO NA SUA VIDA,ME EMOCIONEI MUITO COM SUA POSTAGEM E SÓ QUEM AMA ESSES ANIMAIS É QUE VÃO SABER COMO É SOFRIDO QUANDO OS PERDEMOS....

Andréa Moreira disse...

OI ANA SINTO MUITO PELA LUCY,OUTRO DIA LI NUM BLOG" ELES VIVEM MENOS PORQUE JÁ NASCEM AMANDO DE UM JEITO QUE NÓS HUMANOS LEVAMOS UMA VIDA INTEIRA PARA APRENDER"QUE A LUCY NÃO TENHA PASSADO EM VÃO NA SUA VIDA...FIQUEI MUITO EMOCIONADA COM SUA POSTAGEM E SÓ QUEM AMA ESSES ANIMAIS É QUE COMPREENDEM COMO É SOFRIDO QUANDO OS PERDEMOS...

[Baka Ranger Azul] :: mlks :: Nichelângelo~ ^^ disse...

Ana, chorei com seu post! perdi minha cachorrinha há três meses, e ainda sonho com ela (para o meu desespero, o que não deixa a saudade ir embora).

Quando a minha faleceu pois o coração parou - dizem que poodles têm essas fraquezas mesmo. Me deu uma agonia quando ela ficou doente! Dentro de um ano o quadro dela piorou de maneira tão repentina, que eu nem acreditei que ela tinha mudado tanto. Não andava muito, não ouvia direito, não enxergava bem, como a Lucy.

Quando ela faleceu,m chorei como se houvesse perdido uma irmã.

sinto falta do som das patinhas delas até hoje. a casa fica silenciosa demais sem eles, não?

Marcella Ferreira disse...

Tô aqui chorando... essa separação doi demais. Perder queridos assim parte o coração. O que nos consola são as lembranças de tanto amor partilhado, tantas estórias boas né?
Luz pra sua Lucy e conforto para os corações de vcs. Um abraço <3

Alice Coelho disse...

Que texto lindo!
Meu cachorro, um poodle velhinho, já está no estágio cego, surdo, dorme o dia inteiro e me acorda as três da manhã para fazer xixi (e lá vou eu cheia de amor levantar da cama e levá-lo no jardim).
Fiquei muito emocionada e chorei demais com seu texto!

Temo o dia que isso acontecer com meu cãozinho.

Lucy era linda e tinha cara de brincalhona e cheia de amor!

Agora resta dar carinho aos seus três filhos e pra Tarta!

Fê Dutra disse...

Ana, só quem tem um pet, consegue entender a magnitude de seu texto.
Lucy agora está fazendo festa, com outras crianças num lugar melhor que esse. Acredite!

Karina Agostinho disse...

Olá, Ana!

Lindo e emocionante texto!
Cheio de palavras vindas do coração!

Só quem tem ou teve um cachorro sabe o que é este amor e a dor de vê-los partir. Por enquanto, só sinto o amor, porém, sei que sentirei a dor dentro de alguns anos. É inevitável.

Lucy tinha cara de boazinha mesmo. Tenho certeza de que ela levou os ótimos momentos que passou junto com vc e sua família.

Conforto no coração para vcs e muita paz para a Lucy!

Beijos!

Nina disse...

ooohhh é tao triste qd um bichinho vai embora... tive mts dessas experiencias,sempre tivemos mt bichos em casa e sempre, cada uma delas, é uma experiência mt, mt dolorida.
Quintal silencioso é mt triste.

Sinto tanto :-(

Isa Milanez disse...

Não posso conter as minhas lágrimas, hoje faz um mês e doze dias que meu querido Dooley morreu.Ele estava com quinze anos e quatro meses, bem velhinho e lindo!
Posso compreender exatamente o que representa esse amor em nossa vida, dói muito a ausência daquele amiguinho carinhoso.
Espero que ele esteja brincando com a Lucy lá no céu. Beijos Isa Milanez

Donna Pri disse...

Amiga Ana,

Sei bem da sua tristeza, uma dor insuportavel que não passa.
Perdi 2 salsichas; pai e filha, Margarida com insuficiencia renal, precisamos fazer ela dormir pra sempre também e nao tem coisa pior. Mas ficou uma lembrança tão feliz dela com vocês, foto linda com seu filho e isso que faz tudo valer a pena. Lembramos com fotos, quando vemos outro cachorro identico na rua ou qdo lembradamos de alguma coisa que faziam.
Sinto muito.
Beijo grande pra vc.
Donna Pri

Susan Santos disse...

Nossa Ana sempre fico acompanhando seu blog, mas nunca comento nada...pois hj nao deu pra ficar quieta...to ate chorando aqui.
Isso tudo me fez parar pra refletir sobre minha gatinha Penélope ela está ferida ja tem um tempinho, agora ja esta ate melhorando...eu sempre fui muito apegada a ela, mas dsd quando meu filho nasceu ha 3 meses, que eu nao deixo mais ela entrar dentro de casa e nao dou mais atençao a ela...(nao deixo ela entrar por causa da ferida e dos pelos e nao dou atencão pq agora vivo na correria com o bebe) e dsd o dia que cheguei da maternidade que ela fica doidinha so de ouvir a minha voz e fica pedindo carinho e querendo atenção.
Seu post me fez parar pra pensar que no momento em q ela mais precisa de mim eu estou ignorando a e de um dia para o outro pode ser q ela nao esteja mais aqui para eu dar a atençao e o carinho q ela merece, pode ser tarde demais.
Mas eu nao vou mais deixar q isso aconteça...voce me fez enxergar isso...Obrigada Ana.

Tenho certeza que Lucy esta toda orgulhosa da familia linda q ela teve e que ela foi uma cadelinha muito feliz nesse lar!!!. Bjos!

Kathia Otero disse...

Oi, Ana
Nossos amigos de quatro patas deveriam ser eternos, por todo o bem que nos trazem, mas infelizmente não são. Acho que são como anjos que vem a terra pra nos ensinar o amor e felizes daqueles que aprendem com eles. Gosto muito dessa poesia que achei no Face, ela fala dos gatos (minha paixão, tenho 2), mas acho que pode e deve ser usada para todos os animais:
Every time I lose a cat
They take a piece of my heart with them
And every new cat who comes into my life
Gifts me with a piece of their heart
If I live long enough,
All the pieces of my heart will be cat.
And I will become as loving
And generous as they are
Beijos pra você e toda a familia
Kathia

Daniela de Paula disse...

isso é amor!

Taia Assunção disse...

Sinto muito, Ana...dureza perder um bichinho. Espero que as crianças estejam bem. Beijos!

Kátia disse...

Chorei.... eles são seres iluminados que existem para nos amar incondicionalmente.

Ale Trabalho em Casa disse...

Nossaaa...entrei no seu post no face sobre "cortinas para pia"...e agora estou em lagrimas...a sua Lucy é copia da minha Tina que também passou por muitos problemas de saúde e virou estrelinha a quase nove anos...mas me faz muita falta até hoje...Obrigada por compartilhar este post, pois conforta saber que existem outras pessoas que também amam e que outras aprendem a amar esses anjos de quatro patas. E cada vez mais me convenço que o único defeito deles é viver muito pouco. Abraceijos...

Tiane disse...

Nossa! E tu me fizeste chorar... que história mais linda!!! Pelo que captei do teu relato, a Lucy era muito agarrada contigo. Justo tu, que não "gostava" dela, só dava água, comida, banho e os cuidados básicos pelos quais tu era responsável. E ela dormia na porta do teu quarto... que loucura! Teu relato está muito emocionante! Eu tenho vários cães gatos recolhidos na rua. Quando pequena, dizia que queria ser "lavadora de cachorros". Não segui a profissão mas amo esses bichinhos demais. Sofro com o sofrimento deles. Não como carne por eles. Não sei quando descobri esse meu amor pelos seres irracionais, não foi com um acontecimento específico, eu cresci assim e quando percebi, já estava recolhendo animais na rua. Neste exato momento em que escrevo no teu blog, meu namorado está no veterinário com "nossa última aquisição", o Costelinha, que levou um tiro de algum ser racional. Desculpa me prolongar, eu me empolgo e não paro de escrever. Estou descobrindo teu blog postagem por postagem, e estou amando. Estou entrando no mundo das linhas e agulhas agora, por isso cheguei aqui. Estou encantada com o teu trabalho e fiquei mais que encantada com teu relato e com a Lucy. A última foto ficou muito linda! Agora ela está brilhando tanto quanto um diamante! Bjinho!